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Análise pessoal como alternativa de tratamento para dependentes químicos

A dependência química é um problema multifatorial que envolve dimensões biológicas, sociais e psíquicas, configurando-se como uma das expressões mais complexas do sofrimento humano contemporâneo. Para além da compreensão médica e comportamental, a psicanálise, por exemplo, oferece uma leitura singular sobre o sujeito dependente, privilegiando o aspecto inconsciente dos sintomas e o modo pelo qual o uso de substâncias se articula à constituição da falta e à economia libidinal.



Segundo Freud (1920/1996), o ser humano busca incessantemente o prazer e a evitação do desprazer, movimento que ele denominou de “princípio do prazer”. Na dependência química, esse princípio é exacerbado: a substância atua como um objeto privilegiado que promete a satisfação imediata, afastando o sujeito de sua relação com o desejo e com a falta estruturante. Nesse sentido, o uso compulsivo pode ser compreendido como uma tentativa de tamponar um vazio existencial, uma defesa contra o mal-estar inerente à condição humana (FREUD, 1930/1996).


A abordagem psicanalítica não se limita a eliminar o uso da droga, mas busca compreender o sentido inconsciente do ato de usar. Conforme afirma Nasio (1999), o sintoma deve ser lido como uma mensagem cifrada do inconsciente, expressão de um conflito que não encontrou outra via de elaboração. Assim, o tratamento psicanalítico da dependência química não se reduz à abstinência, mas visa favorecer a simbolização do gozo envolvido na relação com a substância e promover a reconstrução do laço social. É claro que outras formas de terapias e tratamentos podem ser usadas concomitantemente. O esforço terapêutico de “só mais um dia” sem o uso da droga, pode auxiliar em paralelo,  para que o sujeito consiga de forma consciente, fazer mais facilmente as elaborações necessárias na busca de sentido.


Numa visão winnicottiana, a formação do falso self pode estar na base de muitos quadros de adição. O sujeito, sentindo-se desamparado e sem uma base de sustentação afetiva suficientemente boa, recorre à substância como substituto de uma relação primária falha. Nesse sentido, o analista deve oferecer um espaço de sustentação — um “ambiente suficientemente bom” — que permita ao sujeito reconstruir sua experiência de continuidade do ser e elaborar as rupturas emocionais que o conduziram à dependência.


A clínica psicanalítica propõe, portanto, uma escuta que acolhe o sujeito para além do diagnóstico. Em vez de tratar o dependente como um “doente químico”, a psicanálise o considera um sujeito de desejo, atravessado por conflitos inconscientes que encontram expressão na relação com a droga. Segundo Garcia-Roza (1994), o tratamento implica criar condições para que o sujeito possa se responsabilizar pelo próprio sintoma, reconhecendo nele algo de sua história e de seu modo singular de lidar com a falta.


Outro ponto relevante diz respeito à transferência, elemento central em todo processo analítico. O sujeito dependente, frequentemente marcado por experiências de abandono e rejeição, tende a repetir os padrões afetivos internalizados na relação com o terapeuta/analista. Cabe ao analista, portanto, sustentar a transferência de modo ético, sem ocupar o lugar do “salvador”, mas permitindo que o paciente construa novas formas de relação com o desejo e com os objetos (FREUD, 1912/1996). Pode ser que um paciente regredido atue constantemente na relação com o analista, visto que o paciente adicto não possui condições e recursos específicos no campo do simbólico para falar de suas emoções e vivências. “Adicto” pode ser entendido como “sem linguagem oral”, onde o prefixo “a” significa “sem”, e o sufixo “dicto” proveniente de dicsão/linguagem (Zimerman, 2007). Nessa esteira, o analista deve sustentar a todo tempo as atuações do paciente – ausências, silêncios, explosões de raiva, choro regredido, imaturidade, mentiras, etc. –, acolhendo de modo contínuo e introduzindo aos poucos implicações para que o paciente consiga fazer a saída necessária dessa condição regredida. O analista, nesse caso, assume o lugar do pai e da mãe que faltaram na relação do paciente, sendo às vezes necessário mostrar caminhos e fazer imposição de limites. Com relação a essa característica de falta de linguagem, determinado paciente adicto de 53 anos, há 6 meses sem fazer o uso de cocaína, encontrava dificuldades para falar nas sessões de análise. Os silêncios eram bastante prolongados e as queixas giravam em torno do cansaço que sentia, da falta de apetite e do medo do tratamento médico para tuberculose. O paciente encontrou dificuldade para falar sobre suas questões mais profundas, pois não encontrava recursos de linguagem para um tratamento analítico.


Além disso, é necessário compreender que o tratamento psicanalítico da dependência química não exclui outras modalidades terapêuticas. A abordagem interdisciplinar, envolvendo acompanhamento médico, grupos de apoio e suporte social, é compatível com a escuta analítica, desde que esta mantenha sua especificidade: o lugar do sujeito e da palavra, ainda que a palavra seja de poucos recursos (FERNANDES, 2010). A terapia/análise pode contribuir, assim, com uma compreensão mais profunda dos mecanismos subjetivos implicados no uso de substâncias, auxiliando na prevenção de recaídas e na reconstrução simbólica da experiência de falta.


Segundo Figueiredo (2014), o maior desafio do tratamento psicanalítico é oferecer um espaço em que o sujeito possa confrontar o vazio sem precisar preenchê-lo pela substância. Trata-se de um trabalho de longa duração, que visa a construção de uma nova relação com o gozo, com o corpo e com o outro. No caso da psicanálise, o analista não oferece respostas prontas, mas escuta às formações do inconsciente — lapsos, sonhos, associações — que revelam as marcas de um desejo interditado ou de um trauma não elaborado.


Nesse contexto, a psicanálise se distancia das perspectivas normativas que impõem metas de abstinência ou padrões de comportamento. O objetivo não é curar a dependência, mas transformar a relação do sujeito com seu sintoma, permitindo-lhe reinscrever sua história e reconhecer-se como agente de seu desejo. Como lembra Freud (1914/1996), “onde estava o id, deve advir o ego”, isto é, onde reinava a repetição cega do gozo, deve surgir a possibilidade de subjetivação.


Em síntese, o tratamento psicanalítico da dependência química propõe uma escuta singular, centrada no sujeito e em sua história de desejo, em oposição à lógica medicalizante e disciplinar. A droga é compreendida não apenas como substância, mas como objeto de investimento libidinal, representante simbólico de uma falta insuportável. O trabalho analítico, ao possibilitar a fala, transforma o ato em palavra e o gozo em desejo, abrindo espaço para a reconstrução da subjetividade e para o restabelecimento dos laços sociais.



REFERÊNCIAS


FERNANDES, M. C. A clínica psicanalítica das adições: escuta, sujeito e desejo. São Paulo: Zagodoni, 2010.

FIGUEIREDO, L. C. Escuta psicanalítica e clínica contemporânea. São Paulo: Blucher, 2014.

FREUD, S. (1912). Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise. In: ______. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. XII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, S. (1914). Recordar, repetir e elaborar. In: ______. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. XII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, S. (1920). Além do princípio do prazer. In: ______. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, S. (1930). O mal-estar na civilização. In: ______. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

GARCIA-ROZA, L. A. Freud e o inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar, 1994.

NASIO, J.-D. O prazer de ler Freud. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.

ZIMERMAN, David E. Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica e clínica: uma abordagem didática. David E. Zimerman. – Dados eletrônicos. – Porto Alegre: Artmed, 2007.


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