top of page

Feminicídio e agressividade masculina

A semana foi marcada por uma onda de agressividade que dominou os noticiários no Brasil. Dois episódios distintos, porém marcadamente semelhantes, foram noticiados: casos de agressões contra mulheres, ocorridas em elevadores de condomínios, perpetradas por seus respectivos companheiros. A primeira tentativa de feminicídio ocorreu no dia 26 de julho na cidade de Natal/RN. A vítima foi agredida com mais de 60 golpes desferidos no rosto. Enquanto a vítima passava por uma cirurgia no rosto, na sexta-feira do dia 1º de agosto, outra mulher estava sendo agredida também em um elevador, igualmente por seu companheiro, mas dessa vez no Distrito Federal. Baseado nestes episódios, fica evidente o surto coletivo opositor à Lei Maria da Penha que completou 19 anos nesta semana. Isso sem falar da grosseria e estupidez no Congresso Nacional, movimentado na sua maioria por parlamentares do gênero masculino.


A psicanálise, como teoria do sujeito do inconsciente, oferece ferramentas para pensar como determinadas estruturas psíquicas se articulam com a dominação, o controle e a destrutividade que muitos homens exercem sobre as mulheres.


uma mão suja masculina esmagando a cabeça de uma boneca
Fonte: Pxhere.com

Para Freud, o ser humano é atravessado por forças pulsionais que coexistem em tensão: a pulsão de vida (Eros) e a pulsão de morte (Thanatos). Em "O mal-estar na civilização" (1930), Freud argumenta que a civilização reprime a pulsão agressiva em nome da convivência social, o que implica uma renúncia pulsional. Essa repressão, porém, não elimina a agressividade: ela pode retornar sob formas sintomáticas, desviadas ou até destrutivas.


No caso do feminicídio, é possível pensar que há um fracasso no processo de sublimação e elaboração da agressividade masculina. A mulher, nesse cenário, se torna o objeto de descarga de um ódio que muitas vezes está enraizado em vivências inconscientes de perda, castração e desamparo. O masculino, identificado com ideais de onipotência fálica, não suporta a experiência de limite — especialmente quando representada pelo desejo feminino, que aparece como enigmático e incontrolável.


Além disso, Freud descreve, em sua teoria do complexo de Édipo, a importância da diferença sexual e da castração simbólica na constituição do sujeito. A dificuldade de muitos homens em lidar com essa diferença pode se expressar por meio da recusa da alteridade feminina e do desejo de dominar ou destruir o que escapa à lógica fálica.


Donald Winnicott, por sua vez, oferece uma perspectiva mais relacional do desenvolvimento psíquico. Para ele, o sujeito se constitui a partir da experiência de cuidado materno suficientemente bom, que permite o desenvolvimento de um self integrado. Quando há falhas ambientais graves, especialmente na infância, pode ocorrer um colapso do self verdadeiro, sendo substituído por um falso self, defensivo, adaptado, e muitas vezes desconectado da realidade emocional.


A agressividade masculina extrema, nesses termos, pode ser compreendida como uma expressão de desespero primitivo: o feminicida muitas vezes revela um psiquismo não integrado, onde a mulher, ao exercer autonomia ou desejo próprio, ativa um colapso interno que é vivido como aniquilador. A violência surge então como uma tentativa de restaurar uma ilusão de controle frente a um mundo emocional vivido como catastrófico.


Winnicott também distingue entre agressividade como sinal de vitalidade e destrutividade patológica. A passagem da agressividade saudável para a violência letal indica um fracasso na simbolização da raiva e na capacidade de existir na presença do outro como diferente e independente.


Jacques Lacan retoma Freud com uma radicalização da noção de falta e do simbólico. Para Lacan, o sujeito está estruturado em torno da falta-a-ser e do desejo como aquilo que nunca se completa. A mulher, em sua alteridade radical, escapa à lógica fálica — Lacan afirma que “a mulher não existe” no sentido de não haver uma essência universal feminina que se possa compreender ou dominar.


Essa alteridade do feminino pode provocar no homem um curto-circuito subjetivo, já que o feminino representa o gozo que excede a lógica fálica. Diante disso, alguns sujeitos masculinos podem tentar eliminar esse excesso, essa opacidade do desejo feminino, por meio da violência. O feminicídio, nesse sentido, seria uma tentativa (delirante e fracassada) de restaurar um suposto domínio do falo frente ao enigma da mulher.


O feminicídio se dá muitas vezes no registro da paixão amorosa, mas é justamente quando o objeto amado se mostra como Outro, com desejo próprio, que o sujeito masculino, incapaz de lidar com a castração, converte o amor em ódio mortífero.


A psicanálise não oferece soluções imediatas para a violência de gênero, mas permite pensar seus fundamentos subjetivos e simbólicos. Freud, Winnicott e Lacan nos ajudam a compreender que o feminicídio não é apenas um crime — é também um sintoma de um impasse estrutural do masculino frente à diferença, à dependência e à fragilidade.


A agressividade dirigida às mulheres revela muitas vezes uma tentativa de sustentar uma identidade fálica que é, em si, frágil, construída sobre defesas contra o desamparo psíquico, a castração e o desejo do Outro. Nesse sentido, o enfrentamento do feminicídio demanda não apenas medidas legais e políticas, mas também processos de subjetivação e simbolização que permitam aos sujeitos lidar com a alteridade sem recorrer à destruição.


central de atendimento 180

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page